Indígenas bloqueiam BR-101 em protesto contra prisão de cacique no extremo sul da Bahia


Indígenas bloqueiam BR-101, em Itamaraju, para reivindicar soltura de cacique preso em ação da Força Nacional de Segurança Pública — Foto: Arquivo pessoal

Manifestação já dura mais de 15 horas e causa transtornos em Itamaraju; grupo exige a soltura do cacique Suruí Pataxó, preso por porte ilegal de armas

Cerca de 30 indígenas bloquearam, nesta segunda-feira (7), a BR-101, nas proximidades do trevo de Itamaraju, no extremo sul da Bahia, próximo à entrada do Parque Nacional Monte Pascoal. O protesto, que começou por volta das 8h30 da manhã, seguia sem liberação até as 22h e já provocava longas filas de veículos e prejuízos logísticos.

A principal reivindicação do grupo é a libertação do cacique Welington Ribeiro de Oliveira, conhecido como Suruí Pataxó, preso na última quarta-feira (2) por agentes da Polícia Federal e da Força Nacional de Segurança. Ele foi detido junto com outras duas pessoas no território indígena de Barra Velha, em Porto Seguro, por suspeita de portar armas e munições de uso restrito.

Segundo informações da Polícia Rodoviária Federal (PRF), os manifestantes também exigem a remarcação de terras indígenas na região.

Organizações que representam os povos indígenas, como a Apoinme (Articulação dos Povos e Organizações Indígenas do Nordeste, Minas Gerais e Espírito Santo), alegam que a prisão foi política e perseguem o cacique por sua atuação em defesa dos direitos dos povos originários. Em nota, o grupo afirmou que Suruí sofre ameaças de morte há anos e que ele e os outros detidos teriam sido torturados durante o trajeto até a delegacia.

O Ministério da Justiça e Segurança Pública confirmou a ação e afirmou que a atuação da Força Nacional na área segue protocolos para preservar a vida e respeitar os direitos dos povos indígenas. Os agentes, segundo a pasta, são treinados para lidar com situações de alta complexidade e buscam resolver conflitos de forma pacífica.

Empresária é retirada de caminhão e tem veículo incendiado durante protesto

Durante o bloqueio, uma empresária de 40 anos, natural do Espírito Santo, teve seu caminhão incendiado ao tentar ultrapassar a barreira formada pelos manifestantes. Segundo relato da vítima à polícia, ela voltava de uma entrega em Eunápolis e acreditou que o bloqueio havia sido desfeito ao ver outro veículo seguir viagem. Ao avançar, foi cercada por manifestantes armados com pedaços de madeira, lanças e outros objetos.

De acordo com a empresária, ela foi retirada do caminhão à força, agredida fisicamente e psicologicamente, teve o rosto pintado com urucum e os cabelos puxados. Também foi obrigada a gravar um vídeo afirmando que não havia sido agredida antes de ser liberada. Dois celulares foram levados, e o caminhão foi incendiado em seguida. A PRF esteve no local, mas não informou se houve detidos.

Tensão agrária e impasse com o Estado

A prisão do cacique e os protestos ocorrem em meio a um cenário de tensão fundiária na região sul da Bahia. A Força Nacional está em Porto Seguro desde abril, a pedido do Ministério da Justiça, após episódios de confronto entre indígenas e fazendeiros.

A Articulação dos Povos Indígenas e o Conselho de Caciques de Barra Velha denunciam o que consideram criminalização das lideranças indígenas e alertam para violações de direitos humanos. Já setores da sociedade civil cobram do Estado medidas mais efetivas para garantir o direito de ir e vir da população afetada pelo bloqueio.

Enquanto o protesto se prolonga, o impasse se agrava e reacende o debate sobre os limites do direito à manifestação quando confrontado com os direitos coletivos de mobilidade e segurança.

 

Fonte: Principal – Jornal OSollo