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Apresentado como reforço do Vasco na última quarta-feira, Anderson Conceição roubou a cena no momento em que se emocionou recordando sua passagem pela base do clube e o esforço feito pela mãe, Manuelina Falcão Conceição, a Nely, para que ele conseguisse sair do Sul da Bahia e ir até o Rio de Janeiro fazer teste. Anderson, 32 anos, é vascaíno e vai realizar um sonho não só seu, mas de toda sua família.
A possibilidade de defender o Vasco passou a ser ventilada ainda no decorrer da temporada passada, quando o zagueiro perdeu espaço no Cuiabá – ele jogou apenas 11 partidas no Brasileirão. No Dourado, Anderson tinha a estabilidade de mais um ano de contrato e o carinho da torcida após 100 jogos pelo clube, boa parte deles com a braçadeira de capitão. Conquistou a Copa Verde em 2019 e foi peça fundamental na campanha do acesso em 2020.
Além disso, toda vez que Maurício Nassif, seu empresário, tocava no assunto, ele respondia: “Boss, eles lá já têm o (Ricardo) Graça e o (Leandro) Castan, não dá para ir agora”. Nassif é amigo de Anderson Conceição há mais de uma década e conhece bem a relação do zagueiro com o Vasco, mas foi pego de surpresa com as lágrimas e as declarações emocionadas na coletiva de apresentação. “Nunca imaginei que ele fosse contar isso”, confessa.
Com a transferência de Graça para o futebol japonês e a notícia de que Castan iria sair (ele está treinando separado do grupo enquanto negocia sua rescisão), começaram as conversas com o Vasco. Mas não foi uma negociação simples: a primeira proposta do clube cruz-maltino foi baixa diante do que o Cuiabá esperava receber para liberá-lo um ano antes do fim do contrato.
Mas, à medida que os dias foram passando, Cristiano Dresch, vice-presidente do Dourado, se convenceu de que a saída do zagueiro seria o melhor negócio e facilitou as tratativas. O Vasco subiu a oferta, possibilitando o acerto da rescisão. E as partes entraram em um acordo.
Era noite do dia 16 de dezembro, Anderson estava de férias em Toronto, no Canadá, com a esposa Aline e os dois filhos, Anna Luísa, de 11 anos, e Arthur, de sete. Ele tirou uma foto em frente à CN Tower, badalado ponto turístico da cidade, segurando nas mãos a camisa do Vasco, enviou para Dona Nely e escreveu:
Anderson Conceição nasceu em Caravelas, mas foi criado em Nova Viçosa, cidade-natal da mãe para onde se mudaram depois do fim do primeiro casamento. Os dois municípios ficam no extremo Sul da Bahia. Nely, 42 anos, contou ao ge que o filho sempre gostou de bola e que a ideia de se tornar jogador de futebol amadureceu depois do pentacampeonato na Copa do Mundo de 2022, quando ele tinha 11 anos.
– Com os jogos da Copa de madrugada, eu acordava e ele já estava acordado assistindo, não perdia um jogo, não importava a hora que passava. Ali eu já sentia que ele queria isso para a vida – explica ela.
Pouco depois da Copa, ainda em 2002, Anderson insistiu para participar de uma peneira realizada na cidade e foi o único entre mais de 70 meninos a ser aprovado. O olheiro disse que dali a dois dias iria levá-lo para o Campo Grande, no Rio de Janeiro, mas Nely, dividida entre o desespero de deixar o filho menor de idade ir embora e a compreensão de que era seu sonho, conseguiu adiar em alguns dias esse prazo para que pudesse organizar as coisas: “Não era bem assim, não podia entregar ele na mão de qualquer um”. E pôs-se no ônibus junto com o filho numa viagem de aproximadamente 15 horas só para conhecer as instalações e ter certeza de que ele seria bem tratado. Em seguida, voltou para casa com o coração apertado.
Dos 11 aos 13 anos, Anderson treinou no Campusca e morou num alojamento providenciado pelo clube, mas em um determinado momento as atividades da sua categoria foram encerradas e ele precisou voltar para Bahia. Nely viu que precisava fazer alguma coisa diante da frustração estampada na cara do filho e procurou o mesmo olheiro que o havia levado antes. Como resposta, soube da possibilidade de um teste no Vasco, mas dessa vez ela não teria ajuda com o dinheiro da passagem.