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DO RADAR, EM EUNÁPOLIS (BA) – Uma publicação veiculada nas redes sociais oficiais da Catedral Diocesana de Eunápolis provocou uma forte reação de fiéis e acendeu o debate sobre o uso de espaços religiosos para fins político-partidários. No vídeo, postado na terça-feira (6) no perfil da catedral e na página pessoal do padre Diego Reis, o sacerdote aparece ao lado de uma imagem de Nossa Senhora Aparecida convocando a comunidade para o evento “Jesus na Praça das Eleições”, agendado para o dia 22 de outubro, às 19h, na Praça Frei Calixto.
Procurado pelo RADAR, o padre afirmou que a publicação tem caráter político-religioso, mas negou que a mobilização seja voltada a candidatos. Segundo ele, a proposta é promover um ato de adoração pública pelo Brasil, sem transformar a paróquia em comitê eleitoral.
A data escolhida, dia 22, coincide exatamente com o número de urna da candidatura presidencial de Flávio Bolsonaro, que disputa o segundo turno das eleições contra Luiz Inácio Lula da Silva no dia 25 de outubro. Além da data e da convocação para uma carreata pelas ruas da cidade, o conteúdo da postagem foi interpretado por leitores como uma orientação política.
Em um trecho da legenda, o padre pede aos fiéis que orem para que Deus traga “um presidente segundo o seu coração”, reforçando no vídeo a intenção de clamar pelo “segundo turno das eleições do nosso país”.
A postagem registrou diversos comentários de internautas e paroquianos repudiando o ato. Leitores relataram, ainda, que comentários com críticas estavam sendo apagados do perfil, mantendo-se visíveis apenas mensagens de apoio.
Em uma primeira resposta à reportagem do portal, Diego Reis informou que os comentários foram desativados para evitar “discussões desnecessárias”. Não esclareceu se houve exclusão seletiva de mensagens antes do bloqueio.
RELIGIÃO E ATUAÇÃO PARTIDÁRIA
A conduta de clérigos em períodos eleitorais está sujeita às normas do Direito Canônico e às orientações da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB).
O Código de Direito Canônico veda a participação ativa de clérigos em partidos políticos. A norma prevê exceções quando, a juízo da autoridade eclesiástica competente, essa atuação for necessária à defesa dos direitos da Igreja ou à promoção do bem comum.
A CNBB reafirma que a Igreja não indica candidatos nem partidos. A orientação distingue o papel de padres e bispos na formação da consciência dos fiéis da atuação em favor de candidaturas. Nesse contexto, manifestações de apoio eleitoral e o uso de espaços religiosos ou canais oficiais para promover partidos levantam questões sobre os limites da atuação pastoral.

Na resposta ao RADAR, Diego defendeu que a Igreja não ser partidária não significa ser apolítica. Segundo o sacerdote, a missão religiosa também envolve a preocupação com a justiça, a dignidade humana e os valores que orientam a vida pública.
O eventual uso de páginas institucionais de paróquias e catedrais para mobilização partidária está sujeito à avaliação da autoridade eclesiástica. A caracterização de uma infração e a aplicação de medidas disciplinares dependem dessa análise.
POSICIONAMENTO DO PADRE
Na nota enviada nesta quarta-feira (7), Diego Reis argumentou que os cristãos devem considerar os princípios da fé nas escolhas políticas. Defendeu também que, em determinadas circunstâncias, é necessário reconhecer propostas, posicionamentos ou candidaturas com maior proximidade da doutrina católica.
Segundo ele, isso não significa “canonizar candidatos”. O padre afirmou que cada fiel permanece livre para exercer a cidadania conforme a própria consciência, formada e orientada pela fé.
Na mesma manifestação, declarou considerar a esquerda incompatível com o cristianismo e citou o comunismo e o socialismo como exemplos. Essa avaliação foi apresentada pelo sacerdote como parte da justificativa para o posicionamento adotado.
“Não pretendo transformar a paróquia em comitê eleitoral”, afirmou. Diego acrescentou que não será indiferente à realidade do país, que criticou na nota, e declarou que o ato não trata de candidatos, mas da decisão de manter ou transformar esse cenário.
O padre também disse que quem se sentir desconfortável pode deixar de participar da mobilização e recomendou que pessoas descontentes com a publicação bloqueiem o perfil.
A nota não cita nominalmente candidatos, não explica a escolha do dia 22 e não esclarece os relatos sobre a exclusão de comentários críticos.
Fonte: Política – RADAR | Notícias de Porto Seguro, Eunápolis e região